sexta-feira, 17 de julho de 2015

Ética na visão Aristotélica

Por: Lourdes Elizabeth e Juliana Keila


A filosofia desenvolvida por Aristóteles, filósofo considerado criador do pensamento lógico e pioneiro em usar o termo “ética” no sentido que empregamos até hoje (MARCONDES, 2007, p.38) não se distancia, em grande parte, da nossa realidade atual, modos de conceber o mundo e atuar sobre ele.
Para Aristóteles, como nos dias de hoje, a ética é um estudo sistemático sobre as normas e os princípios que regem a ação humana e com base nos quais essa ação é avaliada em relação a seus fins. Podemos observar na figura abaixo que, como sugere Marcondes (2007, p.39), a ética seria o bloco principal para o conhecimento, pois nesse bloco estão todas as regras e princípios que devemos ter antes de cometer uma ação.


Muitos dos seus escritos permanecem latentes em nosso cotidiano. Para Aristóteles, a virtude pode ser ensinada e esse ensinamento é um dos objetivos centrais da filosofia. Ele acreditava que a virtude, os bons hábitos e costumes de homens e mulheres, pode ser ensinada por meio da educação. A virtude não é inata, mas resulta do hábito, é necessário praticá-la, exercê-la efetivamente para nos tornarmos virtuosos.
Tal princípio pode ser claramente observado em nossa sociedade, podemos elencar, de forma prática, alguns exemplos em que é possível relacionar esses saberes filosóficos ao cotidiano. O Escotismo, por exemplo, fundado por Lorde Robert Stephenson Smyth Baden-Powell, em 1907, é um movimento mundial, educacional, voluntariado, apartidário, sem fins lucrativos. A sua proposta é o desenvolvimento do jovem, por meio de um sistema de valores que prioriza a honra, baseado na Promessa e na Lei escoteira, e através da prática do trabalho em equipe e da vida ao ar livre, fazer com que o jovem assuma seu próprio crescimento, tornar-se um exemplo de fraternidade, lealdade, altruísmo, responsabilidade, respeito e disciplina (Escoteiros do Brasil, ?). 


Outro pressuposto ético concebido por Aristóteles é a doutrina do meio termo. Esse é um dos princípios fundamentos da ética de Aristóteles, preconiza que a ação correta seria evitar os extremos. A sabedoria de forma prática é a capacidade de discernir uma medida moderada. A moderação é a característica do indivíduo equilibrado no sentido ético.
De acordo com Marcondes (2007, p. 47), a noção de felicidade é central à ética aristotélica, sendo caracterizada por esse motivo como “ética eudaimônica”. Eudaimonia pode ser entendido como bem estar em relação a algo que se realiza. A felicidade, mais que qualquer outro bem, é tida como este bem supremo, pois a escolhemos sempre por si mesma.
As honrarias, o prazer, a inteligência e todas as outras formas de excelência são almejadas e vivenciadas por nós com o intuito de que através delas poderemos ser felizes.  Buscamos sempre uma finalidade que ultrapassa o que tais excelências podem nos proporcionar por si mesmas. Assim, não podem ser consideradas um bem supremo, de acordo com a ética aristotélica.
Deste modo, se, por exemplo, estabelecemos como meta para nossa vida concluir um curso superior, a definimos visando outras conquistas que serão provenientes dessa realização, como um emprego melhor ou uma boa remuneração. A conclusão do curso por si mesma não representa um bem final ao qual buscamos alcançar. Através de um processo do qual a conclusão do curso é apenas um elemento, chegaremos ao bem supremo, denominado pela ética aristotélica como a felicidade.
Os pressupostos aristotélicos que podem ser visualizados no nosso cotidiano ultrapassam os exemplificados neste texto. Mas a partir dos que foram apresentados, podemos pensar muitos outros aspectos e exemplos que dialogam entre nosso modo de conceber a vida, nossa existência e a atuação sobre o mundo em que vivemos e as notas de aulas com as quais Aristóteles contemplou a Filosofia e a Humanidade como um todo.

Referências
MARCONDES, Danilo Descartes In Textos básicos de ética: de Platão a Foucault. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. Cap. 2, p.37-73

Escoteiro do Brasil: Construindo um mundo melhor. Disponível em: <www.escoteiros.org.br/escotismo> Acesso em: 8 jun. 2015.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Foucault, Brasil e Ética

                Por: Arthur Galhardo, Clóvis Lira e Victor Chalegre

                 O que o pensador Michel Foucault e suas ideias têm de relevante para o Brasil e, melhor ainda, para os brasileiros que encontram, neste primeiro suspiro do terceiro milênio, uma enxurrada de dilemas, polêmicas e questionamentos morais tão inquietantes que parecem levar o país a um grau de tumulto político e as pessoas a um nível de turbulência que não era visto – se foi visto algum dia – há muito tempo?
            Os brasileiros vêm, desde a ditadura militar, "renovando o armário" do país e mudando drasticamente a forma como a nação se "veste". As visitas de Foucault ao “país do futebol e da mulher pelada” nos anos 1970 contribuíram sensivelmente para a já mencionada inquietação que se desenvolve(u) aqui. Em palestras e mesas redondas – todas absolutamente lotadas – ele causou um impacto que, segundo a Folha de S. Paulo, “ultrapassou a simples exposição de ideias em sala de aula” (As viagens de Foucault ao Brasil, Rafael Cariello).

              O pensamento de Foucault e o seu impacto na sociedade brasileira não se resume ao seu repúdio declarado à ditadura militar da época, mas se compatibiliza hoje com a forma na qual as pessoas são e atuam na sociedade e no mundo. As formas de subjetivação e de sujeição das pessoas frente aos códigos de conduta e às regras da sociedade observadas por ele se tornam nítidas aos olhos de quem passa a conhecê-lo um pouco mais. Um exemplo disso, como pode ser visto na tirinha, traduzida livremente, de Malcolm Evans, é comum se perceber um estranhamento por parte dos sujeitos quando têm a oportunidade de entrar em contato com culturas diferentes de suas próprias.


            “A moral é um conjunto de valores e regras de ação propostas a indivíduos e aos grupos por intermédio de aparelhos prescritivos diversos, como a família, as instituições educativas, e as igrejas'' (Foucault, 2001). Essas regras e valores são atribuídas pelas instituições explicitamente, mas a moral ultrapassa esta condição. Sendo distribuída por todo o corpo social, ela constitui um jogo complexo de formas, que estão em relação constante, podendo se anular, compensar e corrigir.
             Este conjunto maior chama-se código moral. O comportamento do indivíduo é um jogo entre o código moral e sua conduta real, assim o indivíduo pode se submeter à determinada norma, regra ou valor de várias maneiras. Assim para determinada regra de conduta existem maneiras de se comportar, modos de sujeição. O corpo social, as instituições esquadrinham o corpo do indivíduo, são mecanismos disciplinadores, que controlam os indivíduos e assim os tornam dóceis, sem mesmo perceberem isso.
            O clip The Wall da banda britânica Pink Ployd trata justamente dessa questão, onde a escola é uma instituição que dociliza os sujeitos e os enquadrando em moldes preconcebidos do que seria um aluno ideal.

 VIDEO: https://www.youtube.com/watch?v=vrC8i7qyZ2w

            Segundo Dreyfus (DREYFUS; RABINOW, p. 165 apud BLACKER, 2002, p. 187), Foucault fala que ''as pessoas sabem o que fazem; elas frequentemente sabem o porquê fazem o que fazem; mas o que elas não sabem é o que faz (causa) aquilo que elas fazem.'' Assim as instituições modelam a alma através dos corpos, atavés de técnicas de controle disciplinar, formulas pelas quais o poder se exemplifica, que são classificados por escala, objeto e modalidade.
            Porém Foucault, ao trazer o conceito de Sujeito Moral, mostra como é possível se portar nestas condições de controle disciplinar que existem hoje.  Ele diz que “uma coisa é uma regra de conduta; outra, a conduta que se pode medir a essa regra. Mas outra coisa é necessário conduzir-se ainda é a maneira pela qual é necessário conduzir-se” (Foucault, 2001). Esta condução segundo Foucault é “maneira pela qual se deve constituir a si mesmo como sujeito moral, agindo em referência aos elementos prescritivos que constituem o código” (Foucault, 2001).




Referências:
RAFAEL CARIELLO, Folha de São Paulo. As viagens de Foucault ao Brasil. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/918570-as-viagens-de-foucault-ao-brasil.shtml. Acesso em: 09 de junho. 2015.
BLACKER, D. “Foucault e a responsabilidade intelectual”. In: DA SILVA, Tomaz Tadeu (Org.). O sujeito da Educação, 2002, p. 155-72.

FOUCAULT, Michel,. História da sexualidade 2: o uso dos prazeres . 10.ed. Rio de Janeiro: Graal, 2001. 232 p.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A ética Kantiana

Por: Amanda Albuquerque e Marília Sena

Immanuel Kant (1724–1804) foi um importante filósofo no período moderno. Foi muito influenciado por Descartes, Locke, Rousseau e Voltaire. E entre suas principais ideias estão: o Racionalismo, o Idealismo Transcendental e Imperativo Categórico. Kant também é bastante conhecido por sua “filosofia moral”, a ética é parte fundamental de seu pensamento. Ele se preocupou com questões morais concretas e com a aplicação prática dos princípios éticos. E suas proposições ainda influenciam como mostraremos a seguir, o pensamento contemporâneo (Marcondes, 2007).

A seguir, traremos alguns dos principais conceitos da ética Kantiana, são eles: Autonomia da Razão, Imperativo Categórico, Esclarecimento e Liberdade. Procuraremos exemplificá-los usando de situações práticas da vida cotidiana e da atualidade com o intuito de mostrar a presença da sua aplicabilidade até hoje.

Autonomia da Razão
            Um dos pressupostos fundamentais da ética kantiana é a autonomia da razão. A razão, no que diz respeito à prática, “é a escolha livre dos seres racionais, que podem se submeter ou não à lei moral, que por sua vez, é fruto da razão pura em seu sentido prático (Marcondes, 2007, p. 86)”. Sendo assim: “Age moralmente aquele que é capaz de se autodeterminar (Marcondes, 2007, p. 86)”.
          Para Kant a moral deve ser baseada no dever. E as reflexões éticas devem ser voltadas à seguinte pergunta: “O que devo fazer?”.
  Trazemos, então, o conceito de Deontologia, onde ‘deon’ significa ‘dever, obrigação’ e ‘logos’ quer dizer ‘ciência’, ou seja, a ciência do dever e da obrigação. Sendo assim, deontologia é um tratado dos deveres e da moral. Esse termo diz respeito a um ramo da ética em que o objeto de estudo é o fundamento do dever e das normas, também conhecido como "Teoria do Dever". Mas também se refere ao conjunto de princípios e regras de conduta ou deveres de uma determinada profissão, ou seja, cada profissional deve ter a sua deontologia própria para regular seu exercício, e de acordo com o Código de Ética de sua categoria (Lopes, 2012).
Existem muitos códigos deontológicos que são elaborados por cada associação profissional. Eles têm por base as grandes declarações universais e procuram adaptar a ética presente nelas às particularidades de cada país e de cada grupo profissional (Lopes, 2012).
Ainda falando de moral. Um dos princípios kantianos define que a ação moral é aquela que pode ser universalizada. Ou seja, independente do que fazemos, nossa ação será ética se puder ser universalizada.

Imperativo Categórico
O imperativo categórico refere-se ao que devemos fazer, os deveres morais, constituídos quando são leis universais, ou seja, quando é desejoso a todos. E esses deveres morais são válidos incondicionalmente (Marcondes, 2007).  Como as leis na constituição, nas quais se baseiam nessa premissa de valer incondicionalmente, sem exceções e parte do princípio que é benéfica para toda a população, quando instituída ganha o caráter de lei universal, lei para todos, nos remetendo ao imperativo categórico de Kant.



A seguir vamos trazer como a ética Kantiana é disseminada no cotidiano, especialmente nos desenhos de Super Heróis. 



Encontramos uma reportagem sobre o novo filme “Batman versus Superman”, no qual Henry Cavill, o Superman do filme explica por que o Superman não derrotaria o Batman.

Importante salientar que o Superman foi criado para ser um herói que carrega tudo que há de mais justo, bom e moral da terra. De forma que matar não faz parte dos seus deveres morais, assim como é o disseminado na nossa sociedade. O Superman é um herói kantiano, o mesmo como um assassino não condiz com sua natureza rica em moral, em razão. Gostaríamos de ressaltar também, que ele já matou outros personagens em filmes e HQs, porém, sempre que isso acontece os roteiristas recebem várias críticas ruins do público, porque essa não é a atitude do Superman.

Esclarecimento
A autonomia do indivíduo no exercício da razão é o único modo de adquirir a maturidade do sujeito. Então o esclarecimento é a saída da condição de menoridade autoimposta (incapacidade de pensar por si só, de se orientar pelo seu próprio entendimento, assim dependendo do outro) e pensar por si mesmo, de exercitar a própria razão (Marcondes, 2007).
No vídeo a seguir “Garota paga mico em protesto”, encontramos um caso de menoridade:

Podemos ver que, ao ser questionada sobre seu posicionamento político, “de direita ou de esquerda”, ela recorre à mãe para dar essa resposta.
O que faz com que pessoas capazes permaneçam na condição de menoridade? Para Kant, preguiça, covardia e comodismo (o confortável) são fatores que explicam por que mesmo sendo seres humanos livres precisamos da orientação alheia (menoridade). É necessário, coragem para se livrar da menoridade tomada como natural e caminhar com os seus próprios pés.
Kant diz que fracas são as almas cuja vontade é guiada pelos julgamentos dos outros e deixa-se levar pelas paixões, o esclarecimento traria a apreciação do racional e o pensar por si mesmo para esse espírito.
Trazemos as charges a seguir como exemplos da menoridade autoimposta e das almas fracas que constituem uma sociedade não esclarecida.

A charge acima mostra outro caso de conformismo e preguiça, elementos que fazem com que as pessoas permaneçam na situação de menoridade.
Ainda assim é necessário andar em direção ao esclarecimento e sair do conforto que a menoridade proporciona. Além do conformismo e da preguiça outro fator que dificulta ainda mais essa “fuga” da menoridade é que viver sob nossa própria orientação não é algo que geralmente seja reforçado na nossa sociedade.
Temos exemplos de que passamos desde a infância sendo sustentados pelos nossos pais e na escola não somos questionados sobre o que gostamos de fazer e sim o que temos que fazer, assim nem sempre somos estimulados a pensar criticamente, a pensar por nós mesmos, porém chegamos a determinados estágios da adolescência e vida adulta que entramos em choque ao sermos questionados sobre nossos desejos, carreiras profissionais, disciplinas a cursar na faculdade, sobre projetos de vidas e várias outras decisões.
A segunda charge que trazemos, traz outro elemento importante para a menoridade: as instâncias que alimentam esse comportamento.


Nesse exemplo, podemos ver uma crítica à mídia, por exercer não apenas seu papel de informar, mas de formar opinião, e ainda de pensar por nós. E nos leva a refletir: até onde os meios de comunicação reforçam a posição de menoridade nas pessoas? Quais de nossos discursos e opiniões fervorosas não são apenas reproduções daquilo que vimos outro falar como sendo a verdade, não foi refletido, apenas repercutido?
O que nos remete ao clipe a seguir da música “Admirável Chip Novo”, de Pitty, que faz uma analogia com a vida contemporânea. Nos compara a robôs com ações e pensamentos programados (menoridade) e quando tem alguma desconfiança que esse “robô” está saindo dessa programação o sistema é reinstalado, como a cantora pontua.


Liberdade
            Liberdade é usar publicamente sua razão em todas as dimensões. E para o esclarecimento só a liberdade é exigida. Porém, por todo canto há restrição de liberdade. Devemos atentar para identificar as restrições de liberdade que querem nos impedir de avançar para o esclarecimento e aquelas que não o impedem, até sustentam (Marcondes, 2007).

          A reportagem abaixo foi postada no dia 21 de março de 2015  Kleber Karpov no site “Política Distrital” (leia reportagem completa aqui: http://www.politicadistrital.com.br/2015/03/21/apos-divergir-com-superior-subtenente-da-pm-recebe-voz-de-prisao-e-e-conduzida-a-papudinha/)
 Nela, podemos ler o caso de uma subtenente da PM que recebeu voz de prisão por descumprir uma ordem de seu superior. Ela afirma ter deixado a sala de reunião, sem permissão, após discordar da fala do major ao questionar a qualidade do serviço do batalhão.
                



É importante ressaltar que o serviço militar tem regras rígidas e a insubordinação não se aplica ao mesmo. Se faz necessário que os “subordinados” se comportem passivamente, fazendo com que exista uma unanimidade artificial em prol da preservação da ordem. Pense numa situação de um confronto, onde a tropa está investindo sobre campo inimigo. Os comandos precisam ser seguidos por todos exatamente como foi especificado. Uma ação individual de alguém que decide, por si, não seguir o comando pode levar a consequências a todos os outros. “Não raciocine, apenas obedeça”.
Ao expressar sua opinião, discordar de seu superior e não obedecer uma ordem expressa por ele, a subtenente não deixou de utilizar sua liberdade e utilizar de sua razão, mas ao fazer isso feriu diretamente esse princípio de “obediência” e recebeu voz de prisão. Mas será que esse princípio se aplicaria a essa situação?

Continuando a discussão, o poema “Quem a tem” do poeta português Jorge de Sena fala sobre a busca incessante pela liberdade, mesmo que tentem impedir de alcançá-la:
“Não hei de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade”

Gostaríamos de finalizar esse post com o lema latino “Sapera Aude” que significa “Ouse saber” ou, ainda, traduzido como “Tenha a coragem de usar seu próprio entendimento!”.



Referências:
Lopes, L. (2012). Conceitos: deontologia, utilitarismo, heteronomia e autonomia. Recuperado em 02 de Junho, 2015, de http://filoparanavai.blogspot.com.br/2012/05/conceitos-deontologia-utilitarismo.html,

Marcondes, D. (2007). Textos básicos de éticas: de Platão a Foucault. Rio de Janeiro:Zahar, 5 ed, 86-93.

terça-feira, 23 de junho de 2015

A ética em Freud

Por Stephanie Calado e Renata Priscylla

“Sigmund Freud, nascido em 1856 na cidade de Freiberg, na Morávia, então parte do Império Austríaco. [...] De origem judaica, formou-se em medicina e especializou-se em psiquiatria, estudando em Viena e depois em Paris. Foi em Viena, capital do Império Austríaco e um dos grandes centros culturais do início do século XX, que viveu a maior parte de sua vida profissional, onde desenvolveu seu trabalho clínico e formulou a teoria psicanalítica. Faleceu em Londres em 1939, onde se exilara para escapar da perseguição nazista.” MARCONDES (2007).
Como acréscimo, uma curiosidade: apesar de concentrar os seus esforços no estudo e tentativas de compreender o inconsciente, Freud também contribuiu – da maneira que melhor sabe –para a reflexão nos campos da ciência, da filosofia, da religião e das artes. Hoje, falaremos a respeito das suas colaborações a respeito da Ética.
Freud faz questionamentos sobre o que fundamenta os valores éticos, como estes se justificam e identifica a moral como a instância central da decisão ética. Para, além disso, mostra que a ação humana não é pautada apenas no controle racional e nas deliberações conscientes, mas que é em grande parte, determinada por elementos inconscientes: instintos, traumas, desejos, dos quais não estamos plenamente conscientes.
As contribuições de Sigmund Freud sobre ética aparecem principalmente na obra "O mal-estar na civilização" (1978) cuja história refere-se ao conflito entre duas características humanas: Eros (amor) e Tânatos (instinto de morte) que, de certa forma, são apresentados enlaçados e indissolúveis entre si, ou seja, metaforicamente, Freud apresenta estas duas esferas como princípios que atuam tanto no interior quanto no desenvolvimento do indivíduo, onde estas devem interagir em grupos diante do (e graças ao) processo de civilização humana.
É na observação metafórica de Tânatos e Eros que a concepção de aparelho psíquico (id, ego e superego) de Freud é recolocada, só que desta vez, mostrada numa perspectiva especial. À medida de informação, tal concepção compreende o Id como correspondente ao inconsciente, o Ego (ou eu) como a consciência e Superego (ou super-eu) como a instância crítica, uma autoridade externa que inclui os valores morais e que pode atuar como uma espécie de “consciência” que pode ser expressada como um sentimento de culpa e uma necessidade de punição quando há a transgressão ou intencionalidade de infração dessas “leis” morais.
Freud então se preocupa em mostrar a ideia de um superego não psicológico, e sim um superego cultural. O superego corresponde, como ele diz, à força dos primeiros grandes líderes da comunidade, que registraram as primeiras leis e que, enfim, mostraram-se divinos ao agirem dessa forma. São exatamente esses líderes que irão deixar para as suas comunidades, que continuam os seus desenvolvimentos, as exigências “que tratam das relações dos seres humanos uns com os outros” e que estão “abrangidas sob o título de ética”. Em outras palavras, o superego cultural é nada mais nada menos que a ética em si.
Para ilustrar o que Freud propôs, utilizamos da mesma artimanha que ele: metáforas!
No vídeo, produzido pela companhia humorística Porta dos Fundos, intitulado “Os Dez Mandamentos” é demonstrada em forma de uma sátira o momento em que Moisés entrega ao povo Hebreu a tábua com as novas “leis” estabelecidas por Deus para que estas fossem seguidas por eles. A resposta recebida pelos atores coadjuvantes é um tanto irônica e com um tom crítico levemente percebido ao fazer questionamentos quanto à veracidade dessas leis, seu momento de “efetivação” e as punições que seriam sofridas por aqueles que os descumprissem. Veja abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=eLawrQ1KQno

Analisando o vídeo, podemos nos remeter ao conceito de superego trazido por Freud e personificado na figura de Deus, que compartilha suas leis e que age como essa força autoritária e externa, a instância crítica que traz os valores morais necessários para uma existência harmoniosa. É este superego que garante que as pessoas não se comportem de maneira socialmente repreensível, estando ligado também ao controle dos impulsos.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, trouxemos como exemplo um trecho de uma série norte-americana (de ficção) aclamada pela crítica de todo o mundo, Dexter. No seriado, Dexter é um serial killer que concentra as suas forças em matar outros que machucaram outras pessoas deliberadamente e não responderam por isso, ou seja, a sua “vontade de matar” é deslocada para pessoas que, de alguma forma, driblam o “sistema” e não são presas. No vídeo abaixo, Dexter cita o “código de Harry” que são mandamentos estabelecidos pelo próprio pai (seu superego), que direcionam suas ações com a maneira correta com a qual ele devia se comportar para que não ele seja descoberto.

Esta educação através dos princípios morais faz com que estes princípios sejam introjetados e assimilados de maneira a trazer uma resposta do indivíduo quando não estão sendo seguidos corretamente ou, antes mesmo de ocorrerem, quando são intencionados. Existe então, uma tensão entre o superego severo e o ego, tratando-se do que conhecemos como “sentimento de culpa”. 
            Trazendo outro exemplo, na tirinha abaixo Mafalda em conversa com a mãe apresenta uma situação na qual, apesar de sua vontade contrária, agiu de forma eticamente correta no que tange os preceitos estabelecidos na sociedade na qual roubar é algo “feio”.

Este “inquilino” citado por Mafalda, nada mais seria do que o Superego expresso como uma “voz da consciência”, com a qual todos nós estamos familiarizados e que rodeiam nossas ações, analisando-as, criticando e direcionando-as para um comportamento mais aceitável ou até mesmo, condenando um comportamento, fazendo com que exista um sentimento de culpa quando há a percepção de ter-se feito algo mau ou errado.
Ademais, pensar a ética em Freud nos remete ao imaginário dessas inconstâncias dos nossos comportamentos e dos fatores que as influenciam e regem, considerando a importância dos fatores inconscientes na nossa consciência moral e atitudes sociais. Sugerimos então, uma reflexão mais centralizada nos aspectos da ética psicanalítica e na influência do superego no nosso próprio comportamento e sua tensão com nosso ego, originando o sentimento de culpa. Quais são suas influências e seus limites nas nossas vidas?


REFERÊNCIAS:
MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Ética: de Platão a Foucault. 4 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2009.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Conversando com os filósofos

por Alina Coriolano e Phagner Ramos


A: Teólogo, filósofo, padre dominicano, um dos principais representantes da escolástica, pai do tomismo e santo declarado pelo papa João XXII. Ufa! Acho que acabei.... Com grande honra, temos o prazer de receber para um bate-papo: Tomás de Aquino! Obrigada por estar conosco esta tarde, Tom!
Tom: Obrigado pelo convite, garotos! É um prazer estar aqui ainda mais por passar certo tempo afastado desde... Bom, desde a minha morte, mas estou feliz por voltar ainda que temporariamente.
P:O prazer é todo nosso! Bom, vamos começar! Digamos Tomás, que essa é uma pergunta bem antiga minha desde a época em que fui apresentado ao cristianismo e, desculpe-me se for óbvio, mas porque Deus criou o mal?

Tom: Antes, gostaria de lhe parabenizar! Pelo visto, sempre fostes bem indagador. Lembra-me um colega, Agostinho, que 800 anos antes de mim indagou-se sobre a mesma coisa. E vamos dar mérito a ele: suas reflexões sistematizaram o pensamento cristão durante muitos séculos. E é importante destacarmos uma coisa: Deus não criou o mal. Na verdade, Ele criou um anjo de luz, o mais belo de todos, e o anjo se tornou a representação do mal. Para mim, o que aconteceu com Lúcifer é a metáfora da falha, ou seja, ele se torna mal por uma falha, não pela criação. Permita-me aqui também esclarecer que o Mal não é um ente, não é um ser que vive. Não consigo pensar em um ser nascido para o mal já que todos nós somos frutos do supremo amor e do supremo bem.
Figura 1Quadro de MihályZichy, "Lúcifer". Mostra a expulsão de Lúcifer do Céu por Deus

A: O senhor mencionou um ponto importante: uma pergunta milenar e de grande importância. Atualmente, como em quase todas as eras da humanidade, há sempre o questionamento: por que existe tanta maldade no mundo? As doenças, a morte, as guerras; enfim, acontece tanta coisa ruim nesse mundo, e muita gente se pergunta onde está Deus! E já que o senhor defende que não há um ser a quem possamos culpar, vem a grande questão: ou Deus não pode acabar com o mal ou Ele não quer. Se for a primeira opção, Ele não é onipotente, se for a segunda, Ele não é bondoso. Como o senhor entende isto?
Tom: Realmente essa pergunta é beeeeeem antiga. Agostinho bem antes de mim já refletia sobre isto, porém ele não conseguiu explicar, aquiescendo-se na fé. Eu, entretanto, acho que consegui avançar neste tema. Acredito que o que aconteceu com Lúcifer também explica os outros eventos: Lúcifer não nasceu mal, ele se tornou mal por conta de uma falha, assim como acontece com as doenças que ocorrem quando o nosso corpo falha na tentativa de nos proteger.
P: Como ocorre no câncer, em que as próprias células passam a se reproduzir de forma não controlada gerando tumores?
Figura 2Células de câncer no pulmão

Tom: Não conheço o câncer, mas sim, seria nesse sentido de que as coisas falham e através das falhas o mal é gerado. Pense por exemplo na morte, que realmente é algo tido como muito ruim, mas sem ela a cadeia alimentar não existiria e como dariam-se as outras vidas?
A: Mas então o senhor acredita que a morte é um bem? Não me leve a mal, mas não é algo que se possa aceitar tão facilmente... Quer dizer então, por exemplo, que as mortes ocorridas na Segunda Guerra Mundial têm um motivo? Que pessoas como Anne Frank morreram por um bem? Não consigo ver o motivo.
Figura 3Fragmento do livro O diário de Anne Frank

Tom:Creio que o mal é uma falha e que existe um motivo maior para cada parte desse mal, mas não sei todos os desígnios de Deus. Não posso te responder sobre todas as explicações para todos os atos que ocorrem... Nessa parte me pareço com Agostinho e me seguro em minha fé.
P: Sabe, isso me faz lembrar do livro Silmallion. Nele, Tolkien explica a criação do mundo através de uma música cantada por Illuvatar (senhor do tempo e de tudo que há) e os Valar (filhos de Illuvatar). A música era harmoniosa e sonora até que um dos Valar começa a querer destacar-se e, para contê-lo, vários outros passam a cantar mais alto. No final, Illuvatar diz que se não fosse a desarmonia, a música não teria sido cantada com tanta vontade. De maneira que a desarmonia possibilitou a música tornar-se melhor.
(Link para download: http://www.4shared.com/get/TLquWzMi/o_silmarillion_.html , disponível em 14 de junho de 2015.)
(Link para leitura online: http://cabana-on.com/Ler/wp-content/uploads/2013/06/J.R.R.-Tolkien-O-Silmarillion.pdf ,disponível em 14 de junho de 2015.)
Tom: Bom, seria algo assim. Os filhos desse senhor não sabiam que a música ficaria melhor, mas ela ficou... Estava nos desígnios.
P: É assim também nessa mesma história que Melkor, um dos Valar, por inveja destrói as árvores do palácio. Porém, depois disso, a seiva dessas plantas torna-se sol e lua.
Figura 4 A criação de “Valinor” e das “Árvores de Valinor”

Tom: Essa história parece ser bem profunda, mas a ideia é bem essa. De certa forma acredito que o mundo precisa ter essas falhas para evoluirmos, só não sei como.
P: Parece também com a história Paraíso de Jorge Furtado narrada no livro "Meu tio matou um cara". Conta a história de Beth que morre e, encontra no céu, o mundo mais que perfeito. O café era perfeito, não havia canais do boi, nem comerciais muito longos, no jornal todas as notícias eram empolgantes e alegres, o marido dela era um galã da globo que a amava incondicionalmente. Depois de algum tempo ela pede para falar com São Pedro, e sem burocracia ou espera, ele aparece. Beth pede então a ele para que faça falhas no dia dela, que o café saía meio amargo às vezes, que o leite derrame, e que o marido as vezes a traia. São Pedro fica espantado, e ela explica que precisa dessas falhas para se motivar a continuar seus dias, que não tem graça acordar e não ter o que fazer, problemas para resolver.
Tom: Não vou comentar sobre a história do céu, mas entendi a questão e realmente é bem isso. Exceto a parte do agir diante de um mundo perfeito.
A: Sabe outra coisa que sempre me deixa encucada? É essa história de livre-arbítrio... se tenho livre arbítrio por que não posso voar?

Tom: kkkkkkkkk, tenho impressão que independente das eras os homens continuam querendo voar! Entretanto, veja que retomamos àquela questão de não saber todos os desígnios de Deus, pois ele nos deu um corpo limitado. Provavelmente para nos incentivar a criar coisas que nos ajudassem em nossas limitações, mas isso não retira nosso livre-arbítrio. Além do mais, não voar é uma limitação que pelo que ouvi falar vocês já conseguiram superar.
A: Tá bem, tá bem... Acho que podemos viver com isso.
P: E, realmente! Já chegamos à lua: foi muito louco!
A: Mas Tom, outra coisa! Tem uma série incrível chamada Criminal Minds (Mentes Criminosas, na tradução brasileira).
P: A parte da série incrível fica por responsabilidade dela... (rsrs)
A: Nem vou te escutar Phagner, enfim nela se retrata um caso em que três melhores amigas são mantidas em cárcere por seu sequestrador até que elas matem uma entre elas. E, assim as meninas vão unindo-se uma contra a outra decidindo quem deve morrer ou não. E tem também aquela situação que rolou no acidente aéreo nos Andes. Painho ainda era menino, mas eu sei que quando o avião caiu as pessoas sobreviveram alimentando-se dos que já haviam morrido. Daí essas escolhas como maneira de sobrevivência consistem em livre arbítrio?

Tom: Eita! Para isso eu não tenho resposta, o mundo é outro agora...
A: Hum.... Agora me veio uma outra pergunta: tem como evitarmos certas falhas? Tipo tem como sermos melhores?
Tom: Claro que tem! Aristóteles já falava sobre isso: a virtude humana pode ser aprendida e ensinada. Se todos buscassem a benevolência, buscassem a Deus e seguissem os desígnios que Ele nos deu claramente, conseguiríamos evitar muitas falhas.
A: Tô ligada!
P: Bom, acho que é isso.
A: Tom, o senhor poderia encerrar a entrevista com uma mensagem para nossos leitores?
Tom: Dê-me, Senhor, agudeza para entender, capacidade para reter, método e faculdade para aprender, sutileza para interpretar, graça e abundância para falar, acerto ao começar, direção ao progredir e perfeição ao concluir.
P: Obrigado, Tom! Foi um prazer partilhar do seu conhecimento!
A: Boa noite e até a próxima edição do Conversando com os filósofos!